Por três décadas, o Bar Brasil tem sido mais que um ponto de encontro na capital sueca — é uma embaixada não oficial do Brasil, onde a música e a dança encontram o frio escandinavo e o abraço brasileiro que aquece as noites de inverno. Por trás dessa história está Johan von Friedrichs, 63, um sueco que temperou a sobriedade nórdica com o ritmo brasileiro.

De artista plástico punk nos anos 80 a um dos maiores embaixadores da cultura brasileira na Suécia, Johan carrega uma contradição fascinante: cresceu em uma família tradicional, mas encontrou no Brasil a liberdade que buscava desde criança.

Em seu estúdio/museu em Gamla Stan, Slow Fox, cercado de camisas autografadas, pôsteres de carnaval e fotos com sambistas, Johan recebe o Brassar para uma conversa que atravessa arte, contracultura e o dia em que conheceu Jairzinho — não Pelé, como eu esperaria. Aos 8 anos, assistindo à Copa de 70, ele descobriu que seu destino estava ligado a um país tropical do outro lado do mundo.

“Como é carregar esse peso histórico?”

JOHAN VON FRIEDRICHS — Quando a família chegou à Suécia, no início do século XIX, a verdade é que não éramos assim tão nobres. O nome era, mas a vida não. A origem vem da Alemanha ou da Holanda, depois passamos pela Letônia no século XV — quando o Brasil ainda nem existia nos mapas europeus — e fizemos bons negócios em Riga. Nossa família foi nobilitada pela rainha sueca Kristina em 1650, quando ela era regente de todo o Báltico.

Mas eu cresci em Täby, como qualquer garoto. Dez meninos na mesma rua, muito futebol, muito esporte, muita bagunça. Minha mãe me levava para protestos contra a Guerra do Vietnã. Meus irmãos ouviam Beatles e Rolling Stones. O “peso” do nome nunca foi maior que a vontade de viver livre.

“Aos 24 anos, você fez uma exposição com um símbolo anarquista. Quem era aquele Johan?”

Foi em 1986, aqui em Gamla Stan. Aluguei um espaço e montei uma instalação completamente louca. O tema era a vida — como ela chega e como vai embora. Enchi o local de folhas secas. No centro, um piano de cauda com apenas duas pernas, caído, como se estivesse afundando.

Parecia o Titanic no meio da natureza. Em cima do piano, uma águia enorme — liberdade e poder. Eu estava na fase punk e arte: cabelo em pé com água e açúcar, tudo preto. Fui a muitos shows, tive banda. Era uma época em que tudo parecia possível: você tocava errado e estava tudo bem.

“Quando o Brasil entrou nessa história?”

JOHAN — Aos 8 anos, na Copa de 70. Pelé, Jairzinho, Rivelino… aquilo foi um terremoto cultural aqui. Quando jogávamos bola na rua, sempre tinha alguém dizendo “Agora sou o Pelé!” ou “Agora sou o Jairzinho!”. E se você fazia gol, ajoelhava e imitava o gesto deles. Parecia sagrado.

Todo mundo queria ser o Pelé — eu queria ser o Jairzinho.

Em 1982, fui para a Copa da Espanha. Mochila, Interrail, Barcelona. Três mil brasileiros festejando nas Ramblas. Ali eu entendi: essa cultura tem algo especial.

“E quando você pisou no Brasil pela primeira vez?”

Foi em 1985. Fiz uma viagem de seis meses pela América do Sul com minha irmã. Ficamos pouco mais de um mês no Brasil. Foi transformador.

Quando vi o Cristo Redentor de braços abertos, parecia um abraço. E percebi outra coisa: o abraço brasileiro é universal. Rico, pobre, gente simples, gente complicada… até os idiotas têm um pouco daquele abraço (risos).

“O que um sueco aprende com o samba?”

JOHAN — Flexibilidade. O ritmo brasileiro leva tempo para entrar no corpo sueco. No Rio, aprendi que, se você resolve uma coisa por dia, já é vitória. Marca às 11h? A pessoa chega meio-dia. Então o segundo compromisso tem que ser às quatro (risos).

Aprendi pandeiro, aprendi a entender o corpo. No Brasil, todo mundo se mexe. Aqui, você tem que ensinar as pessoas a mexerem o corpo. É cultural.

“O que é mais difícil: ensinar ritmo para suecos ou silêncio para brasileiros?”

(Risos) Silêncio para brasileiros não existe. Não funciona. Mas ensinar ritmo brasileiro para suecos também demora. A escola de samba de Estocolmo tem suecos ótimos — mas é um processo longo.

“Como nasceu o Bar Brasil?”

JOHAN — A primeira festa foi em 1º de outubro de 1993. Mas a semente veio antes. Comecei a viajar para o Brasil em 1980 — depois 1986, 1988, e muitas outras vezes. Sempre voltava triste porque faltava Brasil na Suécia.

Comecei a fazer aulas de samba com Maria de Souza. Depois entrei numa escola de samba chamada Madrugada, participando com Mário Branco na música e Carmem Paixão na dança. Mas via festas sem alma feitas por brasileiros aqui. Eu queria outra coisa.

Voltava do Rio cheio de energia e pensava: “Olha o que o Brasil tem!”. Eu e Johan Wikström comprávamos discos, tocávamos nas festas. Ele tocava cavaquinho e montou um grupo. Minha primeira esposa, Dalila era cantora profissional — eu via tudo dos bastidores. Aos poucos, virou um movimento. Até nascer o Bar Brasil.

“Depois de 30 anos fazendo o Brasil pulsar em Estocolmo, o que te move hoje?”

JOHAN — Amigos, família. Fico feliz quando vejo gente fazendo o bem. Hoje tem tanta coisa triste: guerras, cinismo, falta de solidariedade. Todo mundo fala da Bíblia, mas ninguém segue.

Eu fui criado assim: o que você dá, você recebe. Se dá merda, recebe merda. Se dá amor, recebe amor. O Cristo me marcou por isso — braços abertos, pronto para abraçar.

“Se o jovem Johan de 24 anos pudesse te ver hoje, o que diria?”

JOHAN — Ainda tenho muito daquele jovem em mim. Mas se ele me visse hoje, diria: “Vamos tomar um chopp! Vamos para o Brasil!”. E eu iria.

“Você já pensou para quem vai passar o Bar Brasil?”

JOHAN — Ainda não. Me sinto forte. O Bar Brasil — especialmente o carnaval — virou uma marca. Temos conexões com artistas do Rio e brasileiros daqui. É um movimento.

Essa festa pode continuar até eu morrer — e depois também. O Bar Brasil não pode morrer quando o Johan morrer.

“Qual legado você quer deixar?”

JOHAN — O abraço. A cultura do abraço que aprendi no Brasil. Isso me move — e espero que mova outros. No fim, todo mundo quer ser visto, ouvido, abraçado.

Sobre Johan von Friedrichs

Johan von Friedrichs é designer e artista plástico e mantém o Bar Brasil há mais de três décadas. Criado em 1993, o projeto se tornou uma referência da cultura brasileira na Suécia. A festa de carnaval — considerada a maior celebração carnavalesca fora do Brasil — atrai milhares de pessoas todos os anos. Em novembro de 2025, Johan recebeu um prêmio honorário da Embaixada do Brasil na Suécia por suas contribuições à música e à cultura brasileiras desde 1993, condecoração entregue pela embaixadora Maria Edileuza Fontenele Reis.

Obrigada por abrir a coluna de entrevistas do Brassar, Johan!

Foi um prazer imenso entrevistar Johan, ouvir sua história e conhecer mais de perto essa pessoa tão singular, que há décadas constrói pontes reais entre o Brasil e a Suécia — com música, cultura e, sobretudo, abraço.

Se você conhece alguém que o Brassar deveria entrevistar, alguém com uma história que merece ser contada, mande uma mensagem para a gente. O Brassar cresce assim: de pessoa para pessoa.

IPhoto By Isabella Ramalho Photography
Visäo em 360 por Created by Vil Muhametshin

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